terça-feira, 6 de março de 2012

Ainda o Clareamento Dental e suas armadilhas aos dentistas

Quando eu acho que as coisas estão mudando e que a classe odontológica caminha para o amadurecimento e um consequente maior respeito por parte da mídia e dos nossos pacientes, sou obrigado a rever minhas esperanças e me convencer que ainda há muito trabalho a ser feito até que muitos colegas percebam que o melhor caminho para o sucesso profissional é fazer um trabalho ético e embasado em protocolos clínicos biologicamente seguros e cientificamente comprovados. Na edição deste mês da revista Claudia, Editora Abril, que figura entre as leituras oferecidas em minha sala de espera, deparo-me com uma pequena matéria  alertando leitoras para a cor amarelada dos dentes. Logicamente minha curiosidade profissional quer saber o que está escrito. Encontro duas informações assombrosas: a primeira é que misturando um gel labial  incolor (gloss, para os conhecedores de maquiagem) com sombra (para olhos!) prateada ou dourada, aplicado nos lábios,  pode-se ter a percepção de dentes mais amarelos (próximos ao dourado) ou brancos (próximos ao prateado). Pode até ser útil esta informação. A outra contudo, foi de doer. Segundo o texto, aqui, literalmente reproduzido: A SOLUÇÃO: sessões de clareamento com laser. "Os raios de luz liberam oxigênio que combate as manchas.diz o dentista FULANO DE TAL, de São Paulo. Prefiro omitir o nome do colega. Resta na minha mente a esperança (bem, mas bem pequena mesmo!) de ele ter tido suas palavras deturpadas por um repórter leigo e entusiasta de tecnologias. Como pode uma besteira tão grande ainda ser divulgada para o público leigo! Sabedores que já somos do atual estágio científico das pesquisas com clareadores, o mínimo que um profissional tem de fazer quando questionado sobre o assunto é enfatizar os riscos do uso das fontes de luz e seus efeitos menos duráveis e estáveis, comparados com os métodos de auto-aplicação. Acredito que um dentista procurado por uma revista de circulação nacional,  para conceder uma entrevista ou parecer, deva ser uma referência, deva ter seus méritos para merecer tal oportunidade. Tem de ter um mínimo de conhecimento comprovado e o senso de responsabilidade de informar o certo e seguro. O que o leva a fazer afirmações tão levianas e desprovidas de fundamento científico? Será que os novos pacientes e ganhos que captará com a matéria, compensam a exposição de imagem e reputação de forma tão negativa? Até quando veremos colegas propagando milagres às custas de afirmações vagas e mal explicadas? Por que nossas entidades de classe, sabedoras de tais abusos, não criam ações informativas que orientem pacientes e os livrem das armadilhas impostas por profissionais mal informados (ou seria, mal intencionados?). E para completar, ao publicar-se tal informação, lá vem a enxurrada de pacientes perguntando: Mas Dr., o Sr. ainda não usa o laser para clareamento? Ao que eu respondo: Não mais, já usei. É aquele aparelho ali em frente à cadeira. Mas hoje ele só me serve para pendurar o avental. Vamos continuar tentando...